sexta-feira, 19 de abril de 2013

Pliometria no treinamento desportivo

Pliometria: a ousadia no treinamento desportivo
      
A eficiência do treinamento pliométrico contribui muito no rendimento desportivo, e o ideal é utilizá-la apenas como um adicional a outros métodos de força muscular.      
Nos anos 60, o pesquisador russo Verkhoshansky revolucionou o treinamento desportivo ao criar o modelo de periodização em blocos, pois confrontou o modelo clássico de Matveev. O modelo tinha como principal característica as cargas concentradas de força.Segundo Riehl (2004), "os exercícios desenvolvidos por Verkhoshansky foram amplamente difundidos como um método de melhoria de força e explosão, cuja fundamentação teórica desenvolveria a habilidade reativa do aparelho neuromuscular".
Um dos métodos mais difundidos fora o treino pliométrico, sendo "o russo o primeiro investigador soviético a propor uma fundamentação teórica para a utilização desse tipo de treinamento" (Moura, 1988).
O exercício pliométrico é caracterizado pela contração concêntrica imediatamente após a contração excêntrica, resultando numa capacidade de gerar potência máxima em um movimento (Moura, 1994; ID, 1988; Neto et al. 2005; Fox, Foss & Keteyan, 2003; Riehl, 2004, Weineck, 2000).
Várias nomenclaturas são dadas a esse treino: treinamento de choque, força de velocidade, treinamento reativo, treinamento de saltos, reações elásticas, ciclo flexão-extensão (CFE), ciclo alongamento-encurtamento (CAE) e ciclo excêntrico-concêntrico (CEC).
A pliometria é o método mais disseminado; para Riehl (2004) é "o meio mais rápido para o desenvolvimento de força, velocidade e potência, principalmente dos saltos que necessitam de força rápida".
Em sua pesquisa, Gracelli (1983) mostrou que o treino pliométrico foi mais eficiente quando comparado ao treinamento com pesos, na melhoria do salto em distância. Inclusive, a pliometria tem um custo menor aeróbio.
Em Moura (1994), "a eficiência mecânica 'normal' do homem é de aproximadamente 25 %, ou seja, a cada 100 joules de energia química, 25 se convertem em energia mecânica (movimento), e os outros 75 em energia térmica (calor) - uma energia que não nos interessa em termos de desempenho. Quando o CEC é ativado, essa eficiência aumenta para perto de 50%".
Weineck (2000) diz que o treino pliométrico é para esporte de alto rendimento, e supõe uma força bem desenvolvida a um aparelho motor. A força que desempenha um papel importantíssimo na execução da técnica. Já para Badillo e Ayestaran (2001), a falha técnica é proveniente da falta de força e não de coordenação ou habilidade.
O embasamento fisiológico para tal eficiência do método pode ser o recrutamento de unidades motoras e/ou o reflexo miotático e/ou o acúmulo de energia elástica (Neto et al., 2005; Moura, 1988; ID 1994; Durward et al., 2001).
A potenciação mecânica deve-se a ativação das unidades motoras adicionais ou uma maior velocidade de contração devido à fase excêntrica.
O reflexo miotático seria um mecanismo de facilitação provocado pelo alongamento dos fusos musculares e uma resposta de contração dos mesmos (Moura, 1994), e com o treinamento maior e a sensibilidade dos órgãos tendinosos de Golgi, maximizando a resposta miotática (Neto et al., 2005). De acordo com Neto, 2005, e Moura, 1988, o treinamento deve ser executado com pequenas amplitudes (ordem de 6% a 8% o alongamento) de movimento articular para o aumento da quantidade de força, e deve prover tempo necessário para o acúmulo de energia potencial elástico, mas rápido para não dissipar a energia elástica em energia térmica.
E a potenciação elástica se origina do "músculo contraído após ser alongado por uma força externa, pois o trabalho mecânico é absorvido pelo músculo, e que parte deste trabalho pode ser armazenada como energia potencial, nos elementos elásticos que se encontram em série com os componentes contráteis, e que pode ser utilizada para aumentar a produção de energia mecânica durante o encurtamento ativo do músculo" (Cavagna,1977 apud Moura 1988; ). Apesar de três vias explicativas para o maior potencial do CEC, o mecanismo responsável não está explicado (Fleck e Kraemer, 1999).
Então, o CEC é um trabalho de alta exigência neuromuscular. "O contato inicial do pé com o solo produzirá um grau de carga muito rápido, e forças muito acima de 200% do peso corporal serão experimentadas. Quando o corpo chega ao solo, ocorre o contato inicial com a planta do pé seguido por um aumento muito rápido da força na medida em que a perna e o resto do corpo desaceleram rapidamente da velocidade para baixo" (Durward et al., 2001).
As forças de aterrissagem ocorrem no sentido vertical e horizontal. A articulação do joelho é a maior responsável para acomodar as forças de aterrissagem sobre uma perna, e momentos muito grandes são apresentados.
Embora o tempo de acomodação seja pequeno, o grau de carga pode ser excessivo para a articulação do joelho, pois é improvável que os músculos possam reagir rápido para produzir equilíbrio. "Sugere-se que qualquer indivíduo executando exercícios do CAE deveria ser capaz de realizar agachamento com, pelo menos 1,5 a 2 vezes o peso do corpo. (Flecke e Kraemer, 1999)".
Todo treino desportivo possui seus riscos. Educadores e praticantes preocupam-se com o potencial risco de lesão no CEC. São várias as causas de preocupação do treinamento pliométrico, desde o aquecimento inadequado e prévio treinamento de força insuficiente até calçados e pisos impróprios. O Colégio Americano de Medicina e Esporte reconhece o método, e indica até as crianças e jovens, desde que bem prescritos.
Desconfortos ósseos, musculares e articulares podem acompanhar o treino pliométrico (Moura, 1988; Riehl, 2004). Para Durward et al(2001), é possível que ocorram lesões graves a longo prazo. Buscando a prevenção, a iniciação da pliometria deve ser realizada em superfícies macias para que o amortecimento dos saltos não provoque lesões na musculatura esquelética, porém não deve ser muito macias para evitar alongamento excessivo.
Enfim, o treino pliométrico possui grande eficiência, mas é apenas um adicional aos outros métodos de força muscular.


Bibliografia
1- BADILLO, J. J. G.; AYESTARÁN, E. G. Fundamentos do treinamento de força: aplicação ao alto rendimento. Tradução: Márcia dos Santos Dornelles. 2 a ed., Porto Alegre: Artemed, 2001.
2- DURWARD, B. R.; BAER, G. D.; ROWE, P. J. Movimento funcional humano- mensuração e análise. São Paulo: Manole, 2001, p. 137.
3- FOSS, M.L.; KETEYIAN, S. J. Bases fisiológicas do exercício e do esporte. . 6a ed., Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000.
4- FLECK, S. J.; KRAEMER, W. J. Fundamentos do treinamento de força muscular. 2 a ed., Porto Alegre: Ed. Artes Médicas Sul, 1999.
5- MOURA, N. A. Treinamento pliométrico: Introdução as bases fisiológicas, metodológicas e efeitos do treinamento. Revista Brasileira de Ciência e Movimento, v.2 (1), p. 30-40, 1988.
6-MOURA, N. A. Recomendações básicas para a seleção da altura de queda no treinamento pliométrico. Boletim IAF - Centro Regional de Desarollo, Santa Fé, n.12, 1994.
7- NETO, C. L. G. et al. A atuação do ciclo alongamento-encurtamento durante ações musculares pliométricas. Journal of Exercise and Sport Sciences, v.1, n.1, p.13-24, Jan./Jul., 2005.
8- RIEHL, O. Efeitos dos exercícios pliométricos associados à suplementação aguda de creatina na composição corporal e na potência anaeróbia. 2004, 110f. Tese (doutorado) - Universidade de Brasília, Faculdade de Ciências da Saúde, 2004.
9- WEINECK, E. J. Futebol total: o treinamento físico no futebol. Tradução: Sérgio Roberto Ferreira Batista. Guarulhos-SP: Phorte Editora, 2000.
* Preparador físico e fisiologista da categoria juniores do Brasília Futebol Clube e do Departamento de Esportes Universitários da UPIS.
felipecasilva@hotmail.com